Axm

Conjuntos numéricos

Cada conjunto numérico surge como o fechamento de uma operação que o anterior não suportava. A hierarquia não é arbitrária — é a sequência mínima de extensões para que as operações fundamentais sempre tenham resposta.

A espinha

N    Z    Q    R    C\mathbb{N} \;\subset\; \mathbb{Z} \;\subset\; \mathbb{Q} \;\subset\; \mathbb{R} \;\subset\; \mathbb{C}

Cada inclusão é estrita: cada conjunto contém o anterior mais elementos novos. A letra de cada um carrega sua origem — Z\mathbb{Z} do alemão Zahlen ("números"), Q\mathbb{Q} do italiano Quoziente ("quociente"), e N\mathbb{N}, R\mathbb{R}, C\mathbb{C} das iniciais de Naturais, Reais e Complexos. O blackboard-bold (a letra "vazada") é a convenção tipográfica que marca um conjunto numérico fundamental.

A tabela canônica

ConjuntoSímboloMotivaçãoDefiniçãoFechado sob
NaturaisN\mathbb{N}Contar{0,1,2,3,}\{0, 1, 2, 3, \dots\}+, ×+,\ \times
InteirosZ\mathbb{Z}Subtração irrestrita{,2,1,0,1,2,}\{\dots, -2, -1, 0, 1, 2, \dots\}+, , ×+,\ -,\ \times
RacionaisQ\mathbb{Q}Divisão (exceto por zero){p/q:p,qZ, q0}\{\, p/q : p, q \in \mathbb{Z},\ q \neq 0 \,\}+, , ×, ÷+,\ -,\ \times,\ \div
ReaisR\mathbb{R}Completude (preencher "buracos")Qirracionais\mathbb{Q} \cup \text{irracionais}+, , ×, ÷, lim+,\ -,\ \times,\ \div,\ \lim
ComplexosC\mathbb{C}Raízes de qualquer polinômio{a+bi:a,bR, i2=1}\{\, a + bi : a, b \in \mathbb{R},\ i^2 = -1 \,\}+, , ×, ÷,  +,\ -,\ \times,\ \div,\ \sqrt{\ }

Cada linha repara o que faltava na anterior. O motor é sempre o mesmo: uma operação fica sem resposta, e o conjunto se estende exatamente o suficiente para dar uma.

Cada passo: o que se ganha

N\mathbb{N} — naturais

Os naturais contam. Têm adição e multiplicação, e nada mais é necessário para contar. O que falta é a subtração irrestrita: 353 - 5 não tem resposta em N\mathbb{N}.

A construção formal é de Peano (1889), cinco axiomas:

  • existe o 00;
  • todo nn tem um sucessor S(n)S(n);
  • sucessores distintos vêm de números distintos: S(m)=S(n)S(m) = S(n) só se m=nm = n;
  • o 00 não é sucessor de ninguém;
  • vale o princípio da indução.

Desses cinco, toda a aritmética dos naturais se deriva.

Z\mathbb{Z} — inteiros

Queremos que 353 - 5 tenha resposta. A solução é adicionar os inversos aditivos: para cada nn, um n-n. O resultado é Z\mathbb{Z}, e o que se ganha é a subtração irrestrita — para quaisquer a,bZa, b \in \mathbb{Z}, abZa - b \in \mathbb{Z}.

O que ainda falta: a divisão irrestrita. 3÷23 \div 2 não tem resposta em Z\mathbb{Z}.

Q\mathbb{Q} — racionais

Queremos que 3÷23 \div 2 tenha resposta. A solução é adicionar os quocientes p/qp/q com q0q \neq 0. O resultado é Q\mathbb{Q}, e o que se ganha é a divisão irrestrita (exceto por zero).

Os racionais são densos: entre dois racionais quaisquer há sempre um terceiro. Não existe "o próximo racional".

O que ainda falta: 2\sqrt{2}, π\pi, ee. Os racionais têm buracos — sequências convergentes podem convergir para pontos fora de Q\mathbb{Q}.

R\mathbb{R} — reais

Queremos que todo limite convergente tenha um destino dentro do conjunto. A solução é adicionar os irracionais, preenchendo os buracos. O resultado é R\mathbb{R}.

A propriedade ganha é a completude: todo subconjunto não-vazio limitado superiormente tem um supremo em R\mathbb{R}. Os racionais falham nisso — {xQ:x2<2}\{\, x \in \mathbb{Q} : x^2 < 2 \,\} é limitado superiormente em Q\mathbb{Q}, mas não tem supremo em Q\mathbb{Q} (o candidato natural seria 2\sqrt{2}, que não está lá). A construção formal — cortes de Dedekind ou sequências de Cauchy — é detalhe técnico; o que importa é o resultado.

O que ainda falta: 1\sqrt{-1}. Em R\mathbb{R}, a equação x2+1=0x^2 + 1 = 0 não tem solução.

C\mathbb{C} — complexos

Queremos que todo polinômio não-constante tenha raiz. A solução é adicionar ii com i2=1i^2 = -1 e fechar sob as operações. O resultado é C={a+bi:a,bR}\mathbb{C} = \{\, a + bi : a, b \in \mathbb{R} \,\}.

O que se ganha é o Teorema Fundamental da Álgebra: todo polinômio não-constante de grau nn com coeficientes em C\mathbb{C} tem exatamente nn raízes em C\mathbb{C} (contando multiplicidade). Geometricamente, cada complexo é um ponto no plano; z=a2+b2|z| = \sqrt{a^2 + b^2} é a distância à origem, e multiplicar é girar e escalar.

E depois? C\mathbb{C} é algebricamente fechado — nenhuma extensão algébrica acrescenta novidade. Os quaternions (H\mathbb{H}) e octonions (O\mathbb{O}) existem, mas nascem de outra motivação (rotação no espaço, não fechamento algébrico). A espinha termina em C\mathbb{C} porque a álgebra não tem mais o que pedir.

Variações de notação

A notação base aceita modificadores que restringem o conjunto:

NotaçãoSignificado
N0\mathbb{N}_0Naturais com zero: {0,1,2,}\{0, 1, 2, \dots\}
N\mathbb{N}^* ou N+\mathbb{N}^+Naturais sem zero: {1,2,3,}\{1, 2, 3, \dots\}
Z+\mathbb{Z}^+Inteiros positivos: {1,2,3,}\{1, 2, 3, \dots\}
Z\mathbb{Z}^-Inteiros negativos: {,3,2,1}\{\dots, -3, -2, -1\}
Z\mathbb{Z}^*Inteiros não-nulos: Z{0}\mathbb{Z} \setminus \{0\}
Q+, Q\mathbb{Q}^+,\ \mathbb{Q}^*Racionais positivos; racionais não-nulos
R+, R\mathbb{R}^+,\ \mathbb{R}^*Reais positivos; reais não-nulos
RQ\mathbb{R} \setminus \mathbb{Q}Irracionais
C\mathbb{C}^*Complexos não-nulos

A convenção sobre 0N0 \in \mathbb{N} não é universal. Em lógica, teoria dos conjuntos e computação, em geral 0N0 \in \mathbb{N}. Em análise e na teoria dos números mais antiga, com frequência N={1,2,3,}\mathbb{N} = \{1, 2, 3, \dots\}. Convém sempre checar a convenção do autor.

Conceitos estruturais associados

Cada extensão se justifica adicionando uma propriedade algébrica antes ausente. As propriedades-chave:

ConceitoDefiniçãoExemplo
Operação binária em AAFunção f:A×AAf: A \times A \to Aadição em Z\mathbb{Z}
Fechamentoresultado sempre permanece no conjuntoN\mathbb{N} é fechado sob ++, mas não sob -
Elemento neutroee tal que ae=aa \circ e = a para todo aa00 para ++, 11 para ×\times
Elemento inversopara cada aa, existe bb com ab=ea \circ b = ea-a para ++, 1/a1/a para ×\times
Comutatividadeab=baa \circ b = b \circ a++ e ×\times em R\mathbb{R}
Associatividade(ab)c=a(bc)(a \circ b) \circ c = a \circ (b \circ c)++ e ×\times em R\mathbb{R}
Distributividadea(b+c)=ab+aca \cdot (b + c) = a \cdot b + a \cdot c×\times sobre ++ em R\mathbb{R}
Densidadeentre dois elementos há sempre um terceiroQ\mathbb{Q} é denso em R\mathbb{R}
Completudetodo subconjunto limitado tem supremoR\mathbb{R} é completo; Q\mathbb{Q} não

Cada degrau da hierarquia acrescenta exatamente o necessário para fechar uma operação ou ganhar uma propriedade que faltava.

Visão do programador: como subtipos

A inclusão entre conjuntos numéricos é, sob a correspondência de Curry-Howard, a relação de subtipo. NZ\mathbb{N} \subset \mathbb{Z} é Natural sendo subtipo de Integer:

class Complex: ...
class Real(Complex): ...      # parte imaginária = 0
class Rational(Real): ...     # p/q
class Integer(Rational): ...  # q = 1
class Natural(Integer): ...   # ≥ 0

O número 55 é uma instância de Natural, mas também isinstance(5, Complex) — não porque tenha "algo de complexo", e sim porque Natural é subtipo de Complex. Toda função que aceita Complex aceita Natural. Pertencer (5N5 \in \mathbb{N}) é prova de habitação (o 55 tem o tipo Natural); incluir (NZ\mathbb{N} \subset \mathbb{Z}) é subtipar.

Onde o 5 mora

O número 55 pertence simultaneamente a todos os conjuntos da hierarquia:

5NZQRC5 \in \mathbb{N} \subset \mathbb{Z} \subset \mathbb{Q} \subset \mathbb{R} \subset \mathbb{C}

O número não muda. O que muda é o ambiente em que se pode operar sobre ele. Em N\mathbb{N}, somar e multiplicar o 55. Em Z\mathbb{Z}, também subtrair. Em Q\mathbb{Q}, dividir. Em C\mathbb{C}, tirar raízes de qualquer expressão envolvendo o 55.

A pergunta 55 é natural ou complexo? é mal formulada. O 55 é natural e complexo. A pergunta certa é: em qual conjunto estou operando?

Onde estão os irracionais

RQ\mathbb{R} \setminus \mathbb{Q} é o conjunto dos irracionais. Não tem letra blackboard-bold padrão como os outros — costuma-se escrever RQ\mathbb{R} \setminus \mathbb{Q}, ou Qc\mathbb{Q}^{\mathsf{c}} no contexto de R\mathbb{R}.

Os famosos: 2\sqrt{2} (descoberto por Pitágoras, via geometria), π\pi (razão entre circunferência e diâmetro), ee (base do logaritmo natural), φ=(1+5)/2\varphi = (1 + \sqrt{5})/2 (razão áurea), todas as raízes de primos — e, por medida de Lebesgue, quase todos os reais.

Os irracionais são a maioria de R\mathbb{R}; os racionais, uma exceção notavelmente ordenada, de medida zero.

Onde estão os imaginários puros

Um imaginário puro é um complexo da forma bibi com b0b \neq 0 e a=0a = 0. Não formam um conjunto "oficial" da hierarquia — são um subconjunto de C\mathbb{C}, mas não são reais e não têm letra própria.

No plano complexo, os reais ficam sobre o eixo horizontal e os imaginários puros sobre o eixo vertical (excluída a origem). O zero pertence aos dois eixos — é real e imaginário puro pela definição estrita, ou nenhum dos dois, conforme a convenção.

Conexões com os módulos do Axm

Esta hierarquia é a primeira espinha das fundações da aritmética, e cruza vários módulos:

  • Lógica — fixa \in e \subset, que aparecem aqui em cada inclusão;
  • Conjuntos — define união, interseção, complemento e produto cartesiano, as operações que constroem e comparam estes conjuntos;
  • Funções — operações como ++ e ×\times são funções (operações binárias A×AAA \times A \to A);
  • Análise — vive em R\mathbb{R} e depende crucialmente da completude;
  • Álgebra linear — vetores em Rn\mathbb{R}^n e Cn\mathbb{C}^n; autovalores caem em C\mathbb{C} mesmo para matrizes reais.

Toda a sequência é um único movimento, repetido: uma operação não fecha, e o conjunto cresce o mínimo para que feche.