Conjuntos numéricos
Cada conjunto numérico surge como o fechamento de uma operação que o anterior não suportava. A hierarquia não é arbitrária — é a sequência mínima de extensões para que as operações fundamentais sempre tenham resposta.
A espinha
Cada inclusão é estrita: cada conjunto contém o anterior mais elementos novos. A letra de cada um carrega sua origem — do alemão Zahlen ("números"), do italiano Quoziente ("quociente"), e , , das iniciais de Naturais, Reais e Complexos. O blackboard-bold (a letra "vazada") é a convenção tipográfica que marca um conjunto numérico fundamental.
A tabela canônica
| Conjunto | Símbolo | Motivação | Definição | Fechado sob |
|---|---|---|---|---|
| Naturais | Contar | |||
| Inteiros | Subtração irrestrita | |||
| Racionais | Divisão (exceto por zero) | |||
| Reais | Completude (preencher "buracos") | |||
| Complexos | Raízes de qualquer polinômio |
Cada linha repara o que faltava na anterior. O motor é sempre o mesmo: uma operação fica sem resposta, e o conjunto se estende exatamente o suficiente para dar uma.
Cada passo: o que se ganha
— naturais
Os naturais contam. Têm adição e multiplicação, e nada mais é necessário para contar. O que falta é a subtração irrestrita: não tem resposta em .
A construção formal é de Peano (1889), cinco axiomas:
- existe o ;
- todo tem um sucessor ;
- sucessores distintos vêm de números distintos: só se ;
- o não é sucessor de ninguém;
- vale o princípio da indução.
Desses cinco, toda a aritmética dos naturais se deriva.
— inteiros
Queremos que tenha resposta. A solução é adicionar os inversos aditivos: para cada , um . O resultado é , e o que se ganha é a subtração irrestrita — para quaisquer , .
O que ainda falta: a divisão irrestrita. não tem resposta em .
— racionais
Queremos que tenha resposta. A solução é adicionar os quocientes com . O resultado é , e o que se ganha é a divisão irrestrita (exceto por zero).
Os racionais são densos: entre dois racionais quaisquer há sempre um terceiro. Não existe "o próximo racional".
O que ainda falta: , , . Os racionais têm buracos — sequências convergentes podem convergir para pontos fora de .
— reais
Queremos que todo limite convergente tenha um destino dentro do conjunto. A solução é adicionar os irracionais, preenchendo os buracos. O resultado é .
A propriedade ganha é a completude: todo subconjunto não-vazio limitado superiormente tem um supremo em . Os racionais falham nisso — é limitado superiormente em , mas não tem supremo em (o candidato natural seria , que não está lá). A construção formal — cortes de Dedekind ou sequências de Cauchy — é detalhe técnico; o que importa é o resultado.
O que ainda falta: . Em , a equação não tem solução.
— complexos
Queremos que todo polinômio não-constante tenha raiz. A solução é adicionar com e fechar sob as operações. O resultado é .
O que se ganha é o Teorema Fundamental da Álgebra: todo polinômio não-constante de grau com coeficientes em tem exatamente raízes em (contando multiplicidade). Geometricamente, cada complexo é um ponto no plano; é a distância à origem, e multiplicar é girar e escalar.
E depois? é algebricamente fechado — nenhuma extensão algébrica acrescenta novidade. Os quaternions () e octonions () existem, mas nascem de outra motivação (rotação no espaço, não fechamento algébrico). A espinha termina em porque a álgebra não tem mais o que pedir.
Variações de notação
A notação base aceita modificadores que restringem o conjunto:
| Notação | Significado |
|---|---|
| Naturais com zero: | |
| ou | Naturais sem zero: |
| Inteiros positivos: | |
| Inteiros negativos: | |
| Inteiros não-nulos: | |
| Racionais positivos; racionais não-nulos | |
| Reais positivos; reais não-nulos | |
| Irracionais | |
| Complexos não-nulos |
A convenção sobre não é universal. Em lógica, teoria dos conjuntos e computação, em geral . Em análise e na teoria dos números mais antiga, com frequência . Convém sempre checar a convenção do autor.
Conceitos estruturais associados
Cada extensão se justifica adicionando uma propriedade algébrica antes ausente. As propriedades-chave:
| Conceito | Definição | Exemplo |
|---|---|---|
| Operação binária em | Função | adição em |
| Fechamento | resultado sempre permanece no conjunto | é fechado sob , mas não sob |
| Elemento neutro | tal que para todo | para , para |
| Elemento inverso | para cada , existe com | para , para |
| Comutatividade | e em | |
| Associatividade | e em | |
| Distributividade | sobre em | |
| Densidade | entre dois elementos há sempre um terceiro | é denso em |
| Completude | todo subconjunto limitado tem supremo | é completo; não |
Cada degrau da hierarquia acrescenta exatamente o necessário para fechar uma operação ou ganhar uma propriedade que faltava.
Visão do programador: como subtipos
A inclusão entre conjuntos numéricos é, sob a correspondência de Curry-Howard, a relação de subtipo. é Natural sendo subtipo de Integer:
class Complex: ...
class Real(Complex): ... # parte imaginária = 0
class Rational(Real): ... # p/q
class Integer(Rational): ... # q = 1
class Natural(Integer): ... # ≥ 0O número é uma instância de Natural, mas também isinstance(5, Complex) — não porque tenha "algo de complexo", e sim porque Natural é subtipo de Complex. Toda função que aceita Complex aceita Natural. Pertencer () é prova de habitação (o tem o tipo Natural); incluir () é subtipar.
Onde o 5 mora
O número pertence simultaneamente a todos os conjuntos da hierarquia:
O número não muda. O que muda é o ambiente em que se pode operar sobre ele. Em , somar e multiplicar o . Em , também subtrair. Em , dividir. Em , tirar raízes de qualquer expressão envolvendo o .
A pergunta é natural ou complexo?
é mal formulada. O é natural e complexo. A pergunta certa é: em qual conjunto estou operando?
Onde estão os irracionais
é o conjunto dos irracionais. Não tem letra blackboard-bold padrão como os outros — costuma-se escrever , ou no contexto de .
Os famosos: (descoberto por Pitágoras, via geometria), (razão entre circunferência e diâmetro), (base do logaritmo natural), (razão áurea), todas as raízes de primos — e, por medida de Lebesgue, quase todos os reais.
Os irracionais são a maioria de ; os racionais, uma exceção notavelmente ordenada, de medida zero.
Onde estão os imaginários puros
Um imaginário puro é um complexo da forma com e . Não formam um conjunto "oficial" da hierarquia — são um subconjunto de , mas não são reais e não têm letra própria.
No plano complexo, os reais ficam sobre o eixo horizontal e os imaginários puros sobre o eixo vertical (excluída a origem). O zero pertence aos dois eixos — é real e imaginário puro pela definição estrita, ou nenhum dos dois, conforme a convenção.
Conexões com os módulos do Axm
Esta hierarquia é a primeira espinha das fundações da aritmética, e cruza vários módulos:
- Lógica — fixa e , que aparecem aqui em cada inclusão;
- Conjuntos — define união, interseção, complemento e produto cartesiano, as operações que constroem e comparam estes conjuntos;
- Funções — operações como e são funções (operações binárias );
- Análise — vive em e depende crucialmente da completude;
- Álgebra linear — vetores em e ; autovalores caem em mesmo para matrizes reais.
Toda a sequência é um único movimento, repetido: uma operação não fecha, e o conjunto cresce o mínimo para que feche.